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Cordão do Boitatá encanta com pernaltas e cortejo sem trio no Centro

Carnaval • 08 de fevereiro de 2026

Cordão do Boitatá encanta com pernaltas e cortejo sem trio no Centro

Por Mariana Novaes

Publicado em Atualizado em

9 min de leitura

O público fez coro e cantou junto durante o cortejo do Cordão do Boitatá, realizado neste domingo (8), no Circuito Preta Gil, no Centro do Rio. No ano em que completa 30 anos de história, o bloco passou a integrar oficialmente a lista de megablocos da Cidade Maravilhosa e encantou os foliões com…

O público fez coro e cantou junto durante o cortejo do Cordão do Boitatá, realizado neste domingo (8), no Circuito Preta Gil, no Centro do Rio. No ano em que completa 30 anos de história, o bloco passou a integrar oficialmente a lista de megablocos da Cidade Maravilhosa e encantou os foliões com um desfile marcado por pernaltas, estandartes, baianas e uma atmosfera de celebração coletiva.

O Boitatá levou às ruas 250 músicos, além de quase 400 integrantes, mantendo sua característica de desfilar sem carro de som. Após um longo período afastado da região, o bloco voltou a ocupar a Avenida Primeiro de Março e arredores, em um trajeto pensado para comportar a grandiosidade da festa.

Durante o cortejo, o repertório passeou por sambas, marchinhas, afoxés e frevos. O público também pôde conferir arranjos originais de nomes como Moacir Santos, Villa-Lobos, Pixinguinha, Maestro Duda e Braguinha, além de composições criadas especialmente para a orquestra do Boitatá, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Rio de Janeiro.

“É uma alegria muito grande podermos voltar ao circuito da praça XV, de onde a gente saiu em 2012 e, sobretudo, ser reconhecido pela Riotur nesse espaço, que prova a importância da brincadeira do cordão para o carnaval da cidade. O Boitatá já é megabloco há muito tempo, pelo público que tem e por todos os outros indicadores que a gente também abarca. Estamos super felizes”, celebrou Kiko Horta, um dos fundadores do grupo.

Logo atrás, um casal de mestre-sala e porta-bandeira, junto de um boneco gigante de papel machê do compositor e arranjador Pixinguinha, e um grupo de de pernaltas liderada pela artista e produtora cultural Raquel Poti, que desfila pela agremiação há 12 anos.

“O Boitatá foi um dos primeiros blocos que abraçou e recebeu a nossa ala de pernaltas douradas, que esse ano completa 11 anos. E é uma grande escola, uma escola de vida. Eu costumo dizer que no Boitatá a gente aprende os valores que norteiam a festa do Carnaval desde a base. Dessa base das relações, do respeito à rua, do cuidado, com as energias que a gente compartilha. Tudo que a gente aprende aqui no Boitatá funciona para nos tornarmos pessoas melhores.”, afirmou Poti.

No meio do desfile, o boneco gigante de Pixinguinha virou-se para as pernaltas, que estenderam uma faixa em homenagem a Preta Gil, cantora que morreu em 2025 e dá nome ao circuito de megablocos do Rio. Ao som de “Sinais de Fogo”, todos que acompanhavam o desfile se emocionaram e gritaram o nome da artista filha de Gilberto Gil, que marcou a história da música brasileira.

Fogo e Paixão faz homenagem às novelas

O que Jorge Tadeu, Perpétua, Viúva Porcina e o mordomo Crô têm em comum? Todos estavam juntos na manhã deste domingo, na bateria do bloco Fogo e Paixão, que fez seu 16º desfile no Largo de São Francisco de Paula, no Centro do Rio. Com o tema Carnovelas, o bloco prestou uma bela homenagem às teledramaturgias, uma das maiores paixões nacionais.

Sucesso nos anos 80, a cantora Rosana, do hit “Como Uma Deusa”, fez uma participação especial no bloco, que tem o nome inspirado no sucesso do cantor Wando.

Pedro de Moraes Martins, um dos fundadores do bloco, explicou que a força do desfile está justamente no espírito coletivo e na proximidade com o público. Organizado por um grupo de mais de 100 pessoas, o bloco nasceu da ideia de que todos ali são, antes de tudo, foliões.

A proposta é simples e direta: criar um espaço em que bateria e público se misturem, fantasiados, celebrando juntos o Carnaval. Sem camisa oficial, a bateria aposta na criatividade e na interação constante, reforçando a ideia de que a festa só faz sentido quando todo mundo participa. Após 16 anos de história, o desafio de se reinventar segue presente, e foi assim que surgiu o tema deste ano, inspirado em novelas brasileiras, permitindo que músicos e foliões entrassem de vez no clima, com personagens icônicos espalhados pelo cortejo.

“A gente busca o máximo de interação possível, porque Carnaval é bateria junto com o folião, todo mundo se divertindo junto. E aí, depois de 16 anos, a gente pensou: o que dá pra fazer de diferente? Um batuqueiro sugeriu o tema da novela, porque tem muita música emblemática e dá pra todo mundo entrar na brincadeira. A ideia surgiu assim, do nada, e deu super certo. A bateria veio toda fantasiada, o público também: tem Viúva Porcina, Nazaré, Tieta… eu mesmo vou de Jorge Tadeu.”, contou.

Bruno Ribeiro, percussionista, estava fantasiado de Perpétua, em homenagem à vilã icônica de "Tieta" (1989), vivida por Joana Fomm.

"É uma novela muito emblemática, assim, e tem personagens que são icônicos, atravessam gerações, e por mais que o tempo passe, essas pessoas continuam existindo na vida real, principalmente os fiscais da vida alheia. Aí a gente acha que é uma oportunidade da gente trazer essa história pro cotidiano através dessas releituras do Bloco Fogo e Paixão", disse.

O bloco está participando da campanha "Não é Não, respeite a decisão", promovida pela Secretaria de Estado da Mulher.

Entre as músicas que animaram os foliões do bloco estavam “Tieta”, de Luiz Caldas, “Quatro Semanas de Amor”, de Luan e Vanessa, “Turu Turu”, de Sandy e Junior e “A Viagem”, de Roupa Nova. O repertório também teve espaço para novos sucessos como “Eu tenho a Senha”, de João Gomes.

“Venho para o Fogo e Paixão desde quando ele surgiu, há 16 anos. Adorei o tema desse ano, porque são músicas da minha época, que me tocam, me atravessam. E esse ano tá homenageando novelas, que eu assisto desde criança. É pura emoção ver esses personagens que sempre fizeram parte da minha vida aqui na minha frente, em carne e osso. Isso é a cara do Carnaval de rua!”, disse o folião Eduardo Costa.

O Fogo e Paixão relembrou um dos maiores autores de novela do Brasil, Manoel Carlos, que morreu no dia 10 de janeiro, com a canção “Per Amore”, tema da novela “Por Amor” (1997). Logo em seguida foi a vez de homenagear a atriz Regina Duarte e sua eterna Viúva Porcina ao som de “Dona”, imortalizada na novela “Roque Santeiro“ (1986) pelo grupo Roupa Nova.

Chora Me Liga reúne fãs do sertanejo na Glória

O Chora me Liga se concentrou na Glória e reuniu fãs da “sofrência” do sertanejo. Entre os foliões que chegaram cedo ao Chora Me Liga, Manuela Gomes vestia orgulhosamente a camisa de 2024 — uma escolha que diz muito sobre sua relação com o bloco.

“A de 2023 ficou guardada em casa, em 2025 não teve… então vim com a de 2024 mesmo”, contou ela, rindo.

Em 2026, o Chora Me Liga vive um momento especial de reencontro com sua essência. Após mudanças no formato do desfile, o bloco celebra a alegria de estar no lugar que faz mais sentido para sua história e para o seu público.

“A gente tá muito feliz”, afirmou o produtor Marcelo Vital. “O melhor lugar da gente era aqui.” Segundo ele, a decisão foi construída com diálogo e entendimento, pensando na experiência dos foliões e na ocupação do espaço urbano.

Sem homenagens específicas neste ano, o desfile tem um foco claro: celebrar a identidade do Chora Me Liga. “Hoje é só alegria, só felicidade. É a história da menina raiz”, resumiu o produtor.

A expectativa é de um desfile mais próximo do público, com clima leve, conexão direta com os foliões e a energia que sempre marcou o bloco.

Os vocalistas do bloco Primeiro Amor, César Queiroz e Rafa Garcez, que se apresentaram neste sábado (7), em São Conrado, fizeram uma participação especial e cantaram “Sua Boca Mente”, de Ana Castela e Zé Felipe.

No trio, a dupla João Lucas e Matheus reforçou o clima de celebração e agradecimento que marcou o desfile do Chora Me Liga. Vindos de Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, os artistas destacaram a alegria de participar do Carnaval de Rua do Rio.

“Viemos pegando chuva a viagem inteira, desde São Paulo, e chegar aqui agora, encontrar esse sol e essa energia de vocês, é maravilhoso. Deus abençoe demais o nosso dia e o nosso domingo”, disse a dupla, agradecendo o público, a organização e o apoio da Riotur.

Em tom bem-humorado, eles ainda incentivaram os foliões a não perderem a festa, mesmo com a ameaça de chuva. “Se alguém falou que talvez não vinha por causa do tempo, era pra ligar agora e avisar: hoje a gente vai viver momentos incríveis juntos.”

A fala foi recebida com entusiasmo pelo público, reforçando o clima de alegria, entrega e conexão que define o espírito do bloco.

Despedidas e tradição

Após quatro décadas, o Suvaco do Cristo se despediu das ruas do Rio neste domingo, dia 8 de fevereiro. Fundado no Jardim Botânico, o bloco se tornou um dos símbolos do carnaval carioca. O desfile derradeiro saiu com três sambas emblemáticos do bloco, dos anos de 1986, 1988 e 1992 (Divinas Axilas, Pirâmide 88 e Eco no Ar, com composições de Lenine, Mu Chebabi, Xico Chaves, entre outros). Além disso, a bandeira do Suvaco este ano teve quatro estrelas: uma homenagem aos sempre presentes no bloco Sylvia Gardenberg, Arnaldo Chain, Mestre Tião Belo e Jards Macalé.

João Avelleira, presidente do Suvaco do Cristo, destacou a importância simbólica do último desfile do bloco e o legado deixado para o Carnaval de rua. “O último desfile do Suvaco é um momento que nos enche de orgulho, porque o DNA do bloco está presente em inúmeros blocos que hoje fazem parte do Carnaval de rua. Quando começamos, havia pouquíssimos blocos desfilando. Era um período pós-ditadura, em que grandes aglomerações ainda não eram bem-vindas. O Suvaco ajudou a retomar a ocupação das ruas, que sempre foram um espaço do povo.”

“Como toda boa festa, como toda boa reunião, chegou a hora da saideira. Na saideira, se a festa estiver boa, ela continua. Se não, a gente vai embora. Mas com certeza tá bom” disse o intérprete Willian Vorheers.

Joaquim Mello, integrante da bateria, destacou o carinho pelo bloco e a emoção de participar do desfile. “Eu sou Suvaco e tenho um amor enorme pelo bloco. É uma história maravilhosa, que deixa saudade. Neste ano, estar tocando repique é a realização de um sonho.”

Pela manhã, outros blocos desfilaram pela cidade: o Gigantes da Lira animou a Praça Jardim Laranjeiras, mantendo a tradição carnavalesca do bairro. Já para quem preferiu curtir a folia à tarde, o Empolga às 9 concentrou foliões na Vieira Souto, em Ipanema.

Na Zona Sudoeste, a Banda da Barra reuniu milhares de pessoas na Avenida Lúcio Costa e celebrou 43 anos de samba, história e tradição, reafirmando a força e a diversidade do Carnaval de rua carioca.

A programação completa vai até o dia 22 de fevereiro e pode ser conferida no aplicativo Blocos do Rio 2026 e no site oficial https://www.carnavalderua.rio/ garantindo que todos os foliões saibam onde e quando a folia vai rolar.

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